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A Escola Dominical e seu desafio como agência transformadora de vidas

A Escola Dominical desempenha o papel de maior agência de estudo bíblico sistemático das Assembleias de Deus. Semanalmente, quase sempre aos domingos e no turno matutino, milhões de assembleianos se reúnem para estudarem as lições bíblicas. O currículo editado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) divide-se em três segmentos: infanto–juvenil, jovens e adultos, e nesta formatação, alcança todas as faixas etárias da membresia. Portanto, temos a nossa disposição material didático de excelência para atingir o propósito de transformar vidas. Não obstante o currículo seja uma ferramenta indispensável, compete aqueles que ensinam esmerar-se em cumprir a vocação transformadora da Escola Dominical.

Educadores em geral já documentaram e comprovaram que o ambiente escolar tende a reproduzir as ideologias e os comportamentos do meio social em que estão inseridos [1]. Por conseguinte, para não cometer o erro de reeditar modelos educacionais e sistemas de ensino secularizados, o corpo docente da Escola Dominical deve ser vocacionado e capacitado para atuar como agente e multiplicador dos princípios éticos e dos valores morais do cristianismo. Para tanto, o pressuposto bíblico do material didático não pode servir apenas como referencial teórico, mas, sobretudo, como padrão para a práxis cristã evidenciada por perceptível transformação na vida dos alunos. Assim, para se manter como agência de transformação, a Escola Dominical deve enfatizar, entre outros, os seguintes aspectos:

A Bíblia Sagrada como principal fundamento

A Declaração de Fé das Assembleias de Deus professa crer “na inspiração divina verbal e plenária da Bíblia Sagrada, como única regra infalível de fé e prática para a vida e o caráter cristão” [2]. Esta afirmação enfatiza as Escrituras como sendo o único inspirado e inerrante fundamento para a vida cristã. E, embora não se possa desprezar a tradição da Igreja, as leis civis e criminais e nem tampouco os bons costumes adotados pela sociedade, para o cristão toda e qualquer prática e conduta precisa passar pelo crivo e pelo aval da Palavra de Deus (Hb 4.12). Quando nos distanciamos deste princípio fundamental de nossa teologia, a fé, a moral e a ética cristã são desvirtuadas. Já no século XIX a Igreja foi advertida acerca do perigo de relativizar as verdades bíblicas: “uma vez que permitamos que o verme corroa a raiz, não devemos ficar surpresos se os galhos, as folhas e os frutos, pouco a pouco, apodrecerem” [3].

Mediante tal constatação é dever do corpo docente e líderes da Escola Dominical conservar e preservar a autoridade da revelação divina, a fim de que as vidas continuem a ser transformadas. Os princípios bíblicos são imutáveis e universais, isto é, têm aplicação hoje, assim como o tiveram antigamente. Aquilo que as Escrituras consideram como pecado, permanece sendo pecado. A lei divina não pode ser revogada e ajustada aos interesses humanos. Os padrões da conduta cristã não sofrem mutações e não podem ser modificadas para atender o egoísmo e o hedonismo da raça humana. O texto bíblico permanece inalterado e imexível. Por isso, os valores cristãos são permanentes, pois a fonte de autoridade é permanente (Mt 24.35).

A formação do Caráter Cristão

Tendo ratificado a Bíblia Sagrada como pressuposto e fundamento para o ensino da Escola Dominical, as verdades reveladas nas Escrituras passam a ser medida normativa e agente de transformação de vidas. Os aspectos da salvação por meio da fé na morte expiatória de Cristo, a confissão de pecados e o arrependimento conduzem o cristão a andar em novidade de vida (Rm 6.4). A partir desta experiência de salvação uma série de desdobramentos culmina na formação do caráter cristão. O caráter se refere às características morais de uma pessoa, sua maneira de agir e de se comportar em relação à ética. Por exemplo, um crente salvo pauta suas atitudes segundo a moral bíblica e não de acordo com o contexto social em que está inserido. Foi neste diapasão que o apóstolo Paulo escreveu: “deixai a mentira, e falai a verdade... Aquele que furtava, não furte mais” (Ef 4.25,28).

Assim sendo, o caráter se desenvolve no discípulo a partir de instruções básicas e vida exemplar de quem lidera. Porém, “somente uma exemplar de quem lidera. Porém, “somente uma nova natureza habitada pelo Espírito Santo tem o poder fixador do caráter” [4]. Destarte, quando a formação do caráter torna-se prioridade na Escola Dominical, e não apenas o discurso, então é possível testemunhar a transformação na atitude e postura dos cristãos-alunos. O caráter cristão reflete os princípios e valores do cristianismo. Um crente fiel não só deve fazer diferença, mas seu comportamento também deve ser referencial para a sociedade [5]. Em consequência, velhos hábitos são abandonados, condutas reprováveis são descartadas e nítidas mudanças comportamentais são percebidas. Desse modo, aqueles que desenvolvem “a nova natureza de Cristo adquirem caráter que não somente perdura como também transforma” [6].

A práxis da Ética e da Moral cristã.

A ética e a moral sempre fizeram parte do dia a dia da humanidade. Quando os códigos ainda não estavam escritos e positivados a própria consciência estabelecia aquilo que devia ser observado (Rm2.14-15). Porém, para os cristãos, como já vimos, as Escrituras contêm os fundamentos da ética e da moral para a sociedade. Conceitualmente a ética trata dos princípios que orientam a conduta. E, em sincronia, a moral é a prática dessa conduta ética. Por exemplo, “se eu tenho um princípio ético que me orienta a dizer a verdade, minha conduta moral será mentir ou não” [7]. E este ponto é nevrálgico para o autêntico cristão que sempre dirá a verdade, ainda que a mentira possa lhe trazer alguma vantagem pessoal. Tal atitude comprova que a revelação contida nas Escrituras é para quem desfruta do caráter cristão a singular fonte inalterável devalores éticos e morais. Em contrapartida, infelizmente, na segunda metade do século XIX, o filósofo alemão Nietzsche (1844–1900) por meio de suas teorias retirou todo e qualquer vínculo da religião com os conceitos de ética e da moral. O efeito desta influência atingiram os séculos XX e XXI, que extremamente centrados no secularismo e relativismo, inauguraram uma assustadora crise ética e moral de ordem universal. E, por vezes, semelhante comportamento é reproduzido por pseudos-cristãos. Como resultado deste conflito, a Escola Dominical e seus líderes têm o atual desafio de transformar vidas em meio à desconstrução da ética e da moral cristã.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Alicerçados na autoridade das Escrituras, na formação do caráter cristão e na práxis da ética e da moral, a posição cristã discorda que os valores devam ser avaliados pela medida humana. E por isso, diligentes contra-atacamos, por meio do estudo sistemático das doutrinas bíblicas tendo a Escola Dominical como importante agência nesta nobre tarefa de transformar vidas pela renovação do entendimento para que os homens possam “experimentar a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.12).

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS:
[1] BOURDIEU, Pierre e PASSERON, Jean C.. A Reprodução: Elementos para uma teoria do sistema de ensino. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2014, p. 25.
[2] SOARES, Esequias (Org). Declaração de Fé das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p. 21.
[3] COMFORT, Philip Wesley. A Origem da Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 1998, p. 74-75.
[4] CARL, Henry (Org). Dicionário de Ética Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 91.
[5] LIMA, Elinaldo Renovato. O Caráter do Cristão. Rio de Janeiro: CPAD, 2017,p. 9-10.
[6] CARL, Henry (Org). Dicionário de Ética Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 92.
[7] STEFFEN, Ronaldo. Cultura Religiosa. Canoas:ULBRA, 2017, p. 239.

Douglas Roberto de Almeida Baptista - Líder da Assembleia de Deus de Missão no Distrito Federal e do Conselho de Educação Cultura da CGADB. Graduado em teologia, filosofia e pedagogia. Mestre em Ciências das Religiões e Doutor em Teologia. Relator da Declaração de Fé das Assembleias de Deus e Comentarista das Lições Bíblicas para Adultos da CPAD.

Artigo extraído da Revista Ensinador Cristão, ano 20 - nº 78 (abr/mai/jun de 2019) 

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