Subsídios Lições Bíblicas - Jovens

Lição 2 - A Humanidade de Jesus Cristo e a Sua Deidade

1º Trimestre de 2020

Introdução
I-Muito mais que um Super-Homem, um Humano de Verdade
II-Cristo Jesus, Nosso Deus
III-Um Cristo que Conhece as nossas Dores
Conclusão

Professor(a), a lição deste domingo tem como objetivos:
Apresentar o aspecto humano da natureza de Jesus Cristo;
Discutir sobre a perspectiva divina da essência de Cristo Jesus;
Demonstrar que o cuidado de Jesus por nós espalha-se no próprio ser do Filho.

Palavras-chave: Jesus Cristo.

Para ajudá-lo(a) na sua reflexão, e na preparação do seu plano de aula, leia o subsídio de autoria do pastor Thiago Brazil:


CAPÍTULO 2 

INTRODUÇÃO

Há uma expressão que se popularizou no Cristianismo primitivo que nós, contemporâneos, apropriamo-nos dela sem a compreensão plena do que ela representa, não apenas para a época, como para o Cristianismo como um todo: JESUS CRISTO. Na verdade, o senso comum religioso utiliza-a na lógica de uma designação PRENOME-NOME. Porém, é essencial reconhecer que esta expressão carrega consigo, de forma sintética, uma das doutrinas fundamentais da fé cristã: a natureza humano-divina/divino-humana de Jesus Cristo.

Esta é uma questão tão central para o Cristianismo que esta forma de nomear o Salvador ocorre quase duzentas vezes no NT, dentre os versículos deste universo, destaque-se pelo menos três referências importantes onde esta denominação acontece: 1 Ts 1.1 (primeiro texto escrito do NT); Mc 1.1 (linhas iniciais do primeiro Evangelho em termos cronológicos) e Ap 22.21 (as últimas palavras do NT).

A fim de não incorrer naquilo que consideramos um erro lógico-ontológico, ao referirmo-nos os aspectos humano-divino/divino-humano da natureza de Cristo não os abordaremos como aspectos autônomos ou desconectáveis da essência de Jesus, deste modo ao reportarmo-nos ao ser de Jesus Cristo, sempre trataremos como uma estrutura una e única em sua condição de existência. 

Diante da ampla possibilidade de abordagens desta questão, optou-se nesta obra por eleger os credos e a declaração de fé das Assembleias de Deus no Brasil como fios condutores para apresentação e problematização da questão sobre a natureza de Jesus Cristo.

Uma pequena digressão

Tratando inicialmente de uma abordagem que não será objeto central neste capítulo, associar-se a expressão Jesus Cristo no primeiro século era uma postura altamente controversa e perigosa socialmente. Boa parte dos termos adotados pelo Cristianismo em seu nascedouro tinha uma forte carga semântica associada a práticas políticas, por exemplo, palavras como Evangelho, Eclésia, Parusia, Apóstolo, são todos designativos de práticas ou personagens do mundo político — isto é aquilo que poderíamos denominar da condição Sitz im Leben das mesmas no mundo greco-romano. 

Para alguns autores, a apropriação cristã destes termos reveste-se, na verdade, como uma forma de resistência — velada pela linguagem no aspecto privado da religiosidade ou manifesta pelo impacto social do uso da mesma. Para Malheiros:

Euangelion era como se chamava a proclamação, o anúncio, de uma vitória em tempos de guerra, ou outros tipos de comunicações oficiais. Como informa-nos Gonzaga (2014, p. 28): “Assim, por exemplo, a paz romana e tantos outros eventos da vida romana, como o nascimento do imperador, eram celebrados como evangelhos na vida do império.” Diretamente associado ao termo euangelion está apóstolos, que faz referência ao indivíduo que conduz a notícia, aquele que carrega a mensagem. No entanto, como a mensagem é especial, a missão de entrega-la torna-se de extrema relevância e o realizador da tarefa ganha notoriedade e visibilidade.

ekklésia é a designação grega para um determinado tipo de reunião oficial na qual os cidadãos, na Atenas democrática, reuniam-se para deliberarem sobre assuntos pertinentes ao interesse da coletividade, e que permaneceu como instituição política atuante dentro do império romano.

Sobre as especificidades da concepção política do termo, afirma-nos Menezes:

A ekklésia era a Assembleia do Povo e nela o cidadão ateniense adulto de sexo masculino tinha direito a palavra e voto. Reunia-se com um mínimo de seis mil cidadãos, numa colina chamada Pnyx, nas proximidades da ágora. Dela estavam excluídos escravos, estrangeiros, mulheres, crianças e cidadãos privados de seus direitos políticos (atimoi). Caso algum representante desses segmentos fosse encontrado durante a realização de uma Assembleia, poderia ser condenado a sérias punições. Aristóteles descreve a ekklésia como o fórum credenciado para decidir a paz e a guerra; para construção e/ou rompimentos de alianças; para a promoção de leis, bem como para aplicá-las em caso de banimentos, de confiscações ou de pena de morte. Era também através da Assembleia que os magistrados prestavam contas de suas decisões durante (ou ao término de) seus respectivos mandatos (ARISTÓTELES, 1964, Cap. X, p. 115). (MENEZES, 2010, p. 25)

Diante desta citação deve-se ficar explícito a necessidade do leitor moderno compreender que existe uma determinada intencionalidade dos autores sagrados ao optarem pelo uso de um determinado termo da tradição greco-romana.

A Parousia referia-se à visita oficial do imperador ou de autoridade competente delegada por ele. Para alguns interpretes a palavra ganhou — ao longo do tempo — um significado que abarcava também todo o cerimonial desenvolvido na cidade que recepcionava a autoridade política.

Dentre estes e outros termos, todavia, nenhuma apropriação religiosa de vocabulário político produziu tanta repercussão como a do termo “Kyrios”. Esse é um termo utilizado em referência direta aos imperadores, especialmente numa associação com a divindade que os mesmos advogavam para si mesmos.

Sobre o “culto a César” pode-se citar a já célebre inscrição em homenagem a Otávio Augusto — aquele que exigia para si a glória de ser chamado de “filho de deus”, “deus”, “Deus de deus”, “Senhor, redentor e salvador do mundo”:

Todas as cidades adotam unanimemente o aniversário do divino César como o novo início do ano... Enquanto a Providência, que regulou toda a nossa existência... levou a nossa vida ao ápice da perfeição ao nos dar [o imperador] Augusto, a quem ela encheu de força para o bem-estar dos homens, e que sendo enviado a nós e a nossos descendentes como Salvador, pôs fim à guerra e colocou todas as coisas em ordem; e [por isso] tendo se tornado [deus] manifesto (phaneis), César realizou todas as esperanças de tempos anteriores... ao superar todos os benfeitores que o precederam... e enquanto, finalmente, o aniversário do deus [Augusto] se tornou para o mundo inteiro o começo de boas novas (euangelion) com relação a ele [portanto, que uma nova era comece a partir do seu nascimento].1

Essa imagem divinizada do imperador colide de modo inegável com a nova perspectiva que o Evangelho de Jesus trazia, e quando um cristão do primeiro século assume o risco de não reconhecer a divindade de César, imediatamente ele assina para si uma sentença de risco de morte.

Quando os escritores do NT e a Igreja Primitiva adotaram uma terminologia tão marcante como esta — e algumas vezes ainda acrescentavam a palavra “Cristo”, constituindo assim referência “Senhor Jesus Cristo”, de uma vez só os cristãos incitavam a ira de Roma e a retaliação dos judeus. De uma vez só acusações de insubordinação e rebelião por parte dos romanos, e de blasfêmia e impiedade vindas do povo judeu.

A natureza de Jesus Cristo no Credo dos Apóstolos

O segundo artigo do assim chamado credo apostólico dedica-se inteiramente a Jesus, e por uma consequência óbvia, trata da questão de sua natureza. Conforme o texto majoritariamente aceito:

E em Jesus Cristo, seu Filho Unigênito, nosso Senhor; que foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria; sofreu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto, e sepultado, e desceu ao Hades; e ressuscitou da morte ao terceiro dia; que subiu ao Céu, e está sentado à mão direita de Deus, o Pai Todo-poderoso; de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos. (SILVA, 2017, p. 217)

O debate sobre a natureza de Jesus Cristo neste testemunho do cristianismo primitivo concentra-se em três sentenças desse artigo: “E em Jesus Cristo, seu Filho Unigênito, nosso Senhor...”, “... concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria...” e “... foi crucificado, morto, e sepultado, e desceu ao Hades; e ressuscitou da morte ao terceiro dia...”. Nestes dois textos é perceptível a unidade entre divindade e humanidade no Salvador; Ele não é apresentado aqui como “Jesus, o Cristo” ou como “O Cristo que se revelou em Jesus” como se isso fosse uma tensão pendular entre dois polos — ora humanidade, ora divindade —, Ele é descrito como “Jesus Cristo”, unigênito e Senhor.

Ele é único e soberano, “Senhor Nosso”. Jesus Cristo é apresentado neste credo como aquele que conviveu entre nós sabendo do fardo que é nossa condição humana; seu conhecimento sobre o que somos é exaustivo e completo, pois estando hoje glorificado, Ele é Deus onisciente e enquanto cumpriu o plano eterno da salvação em sua encarnação vivenciou de fato e realidade.

A segunda sentença talvez seja a mais clara com relação a especificidade da natureza de Jesus Cristo; concebido pelo Espírito, nascido de Maria. A concepção de Jesus pelo Espírito demonstra mais uma vez, de modo indireto, a operação e existência da Trindade e seu nascimento do ventre de Maria, manifestam sua humildade do Rei Eterno em preparar o resgate de nossas vidas.

Sua morte e ressurreição associam-no a nós de modo indiscutível, revelando-o assim Homem-Deus. O escândalo do Cristianismo é a radicalidade da doação da vida eterna na cruz, já a loucura é sua ressurreição primogênita, a qual abriu um caminho de salvação para toda a humanidade. E somente porque Ele é Deus-homem, tudo o que fez tem repercussões espirituais válidas e eternas.

Jesus Cristo nos credos Niceno / Niceno-constantinopolitano

Nestes credos aparecem pela primeira vez as expressões “homooúsios” (grego) e “consubstantiale” (latim), que em língua portuguesa significa “consubstancialidade” o qual aponta para duas doutrinas de muita relevância para a fé cristã: a natureza de Jesus Cristo e a Trindade.

Afirmar que o Filho tem a mesma natureza do Pai implica reconhecer a divindade do mesmo, ora, havendo o testemunho histórico de sua encarnação — e por isso, o atestado óbvio de sua humanidade —, a unidade de essência com o Pai comprova sua divindade.

Permanece sempre no horizonte a necessidade de não duplicar a essência de Jesus Cristo, para que assim não se faça uma multiplicação ou divisão daquilo que é uno eternamente.

Westpal, falando sobre comentários e análises de Lutero acerca destes credos antigos, afirma que:

Em outro escrito, Lutero também aborda a dificuldade com o termo homoousios, porque, segundo ele, o seu sentido foi pervertido pelos hereges de todos os tempos. Em decorrência disso, havia a suspeita de que Lutero fosse adepto do arianismo. Na verdade, do mesmo modo como Lutero, Atanásio tinha dificuldades, no início da polêmica com Ário, com o conceito homoousios. Entretanto, na sua crítica ao homoousios, Lutero reconhece que esse conceito, que o NT não conhece, foi empregado para ressaltar o testemunho da Escritura a respeito do seu centro, que é Cristo. Do mesmo modo, para Atanásio, esse conceito — inicialmente empregado por Ário — era o que melhor expressava o testemunho do NT. Também para Lutero, o uso de uma palavra estranha ao testemunho do NT somente deveria acontecer em casos de necessidade extrema, para que um conceito enfaixasse muitos outros versículos. Precisamos entender que Lutero se opunha à interpretação especulativa do homoousios e, com isso, também à Trindade imanente, ou seja, segundo ele somente é possível entender a realidade trinitária a partir da sua economia, da sua obra salvífica: encarnação e cruz. (WESTPAL, 2003, p. 55)

As críticas de Lutero concentravam-se no uso de termos que não eram do contexto interno do próprio NT. Na verdade, o cuidado do reformador vai na direção de não permitir que as Escrituras tornem-se reféns de argumentos ou categorias alheias a elas mesmas; risco este que se corria em virtude daquilo que Lutero entendia como uma apropriação do ferramental filosófico para explicação de doutrinas bíblico-teológicas.

Pela opção hermenêutica de Lutero, deve-se conduzir toda discussão sobre a natureza de Cristo — e por consequência da própria Trindade — prioritariamente pelos argumentos bíblicos, somente quando for inevitável e feito de modo muito claro, deve-se socorrer-se de termos fora do próprio NT.

Como percebe-se também por esse comentário, a questão da natureza de Cristo e da Trindade são questões conexas e indissociáveis na perspectiva destes dois credos antigos. Mas nem por isso, entretanto, tornam o debate menos complexo ou isento de questionamentos em todo o curso do desenvolvimento do pensamento cristão.

Cristo Jesus no Credo Assembleiano

Com relação ao debate sobre a natureza do Filho, o credo assembleiano — em sua versão sintética mais tradicional — afirma:

No Senhor Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus, plenamente Deus, plenamente Homem, na concepção e no seu nascimento virginal, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal dentre os mortos e em sua ascensão vitoriosa aos céus como Salvador do mundo (Jo 3.16-18; Rm 1.3,4; Is 7.14; Mt 1.23; Hb 10.12; Rm 8.34 e At 1.9); (SILVA, 2017)

Já num texto atualizado e um pouco mais ampliado — e selecionado especificamente no que se refere a natureza do redentor —, diz-nos assim: “verdadeiro homem e verdadeiro Deus: ‘e dos quais é Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém’ (Rm 9.5).” (SILVA, 2017, p.48)

Não fica qualquer tipo de dúvida que a questão da natureza de Jesus Cristo é ponto indiscutível. Sua condição divino-humana/humano-divina demonstram-se de modo muito evidente. Especialmente no comentário sobre o Credo — um texto mais pormenorizado e comprometido em deixar claro a posição oficial da Igreja — a natureza do Redentor é apresentada em sua complexidade e unidade. Não há qualquer dúvida quanto ao caráter natural e indissociável da divindade e humanidade do Mestre.

CONCLUSÃO

A revelação daquilo que é a natureza do Filho através das narrativas bíblicas é suficiente para todos aqueles que creem em Jesus. De fato, esta não é sequer uma questão que se polemiza nas páginas da Bíblia Sagrada, uma vez que ela é simplesmente apresentada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HORSLEY, Richard A. O reino de Deus e a nova desordem mundial. São Paulo: Paulus, 2004.

MENEZES, M. L. Democracia de Assembleia e Democracia de Parlamento: uma breve história das instituições democráticas. Sociologias (UFRGS. Impresso), v. 23, p. 20-45, 2010.

SILVA, Esequias Soares da (Org). Declaração de Fé: Jesus salva, cura, batiza no Espírito Santo e breve voltará. Apêndice. Os credos ecumênicos, p. [217]. 3.impr – Rio de Janeiro: CPAD, 2017.

WESTPHAL, Euler Renato. O significado da fórmula por causa de Cristo: uma abordagem sobre a experiência da justificação a partir da confissão de Augsburgo IV. Estudos Teológicos, São Leopoldo, v. 43, n.1, p. 50-63, 200.

                                                                               
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Que Deus o(a) abençoe.

Telma Bueno
Editora Responsável pela Revista Lições Bíblicas Jovens


1  HORSLEY, Richard A. O reino de Deus e a nova desordem mundial. São Paulo: Paulus, 2004. p. 29.


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Videoaula - pastor Thiago Brazil

  

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