Lição 7 – A obra do Filho
ESBOÇO DA LIÇÃO:
I – A HUMILHAÇÃO VOLUNTÁRIA DO FILHO
II – A OBRA REDENTORA DO FILHO
III – EXALTAÇÃO GLORIOSA DO FILHO
A HUMILHAÇÃO VOLUNTÁRIA DO FILHO:
O Esvaziamento de sua Glória:
O apóstolo Paulo escreve que Jesus, “subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus” (Fp 2.6 ARA). Essa construção do texto grego é teologicamente profunda. O verbo “subsistindo” (gr. hyparchō) indica um estado contínuo e permanente, ou seja, Cristo foi Deus, mesmo antes de sua encarnação (Jo 1.1,17). A expressão “forma de Deus” (gr. morphē Theou) refere-se à essência divina compartilhada com o Pai, não apenas uma aparência. Conforme leciona Barclay, “Jesus está de maneira inalterável na forma de Deus; sua essência e seu ser imutável são divinos”.
Contudo, Cristo não considerou esse status divino como algo a ser usado em benefício próprio. A frase traduzida como “usurpação” (gr. harpagmós) pode indicar algo a ser agarrado a todo custo ou algo explorado egoisticamente. A NVI traduz “não considerou que o ser igual a Deus fosse coisa de que não devesse abrir mão”. Como escreve Hendriksen, “Ele não considerou o fato de ser igual a Deus como sendo algo que não devesse escapar de seu domínio”. Ao contrário do primeiro Adão, que almejou ser “como Deus” (Gn 3.5), Cristo, o segundo Adão, sendo Deus, por amor preocupou-se com o bem-estar dos outros (Fp 2.4b).
Sendo Ele igualmente Deus, compartilhando da mesma natureza do Pai (Jo 1.1), preferiu privar-se de seus direitos, não da sua divindade. Essa realidade é confirmada por Jesus três vezes quando declara: “Eu não vim para fazer a minha vontade” (Jo 6.38). Essa expressão pode ser traduzida como “esvaziou-se” ou “aniquilou-se a si mesmo” (Fp 2.7, ACF). Essa expressão pode ser traduzida como “esvaziou-se” ou “aniquilou-se a si mesmo” (gr. ekenōsen, de kenóō) refere-se à autoabnegação voluntária, assumindo a natureza humana (Fp 2.7b). Isso não significa a perda de sua divindade, mas a renúncia da glória que Ele possuía na eternidade com o Pai (Jo 17.5).
Aqui é importante ratificar que, na encarnação, Jesus não perdeu seus atributos divinos. Cristo não deixou de ser Deus, mas abriu mão da manifestação externa da sua glória e dos privilégios celestiais (Jo 17.5). Strongstad corrobora com essa interpretação ao afirmar que a divindade foi algo que Jesus se recusou a reconhecer como seu direito inalienável. Ele não deixou de lado os seus direitos (não a sua divindade), mas os suspendeu. Sim, Ele se humilhou, tornando-se servo (gr. doulos), com total identificação com os homens (Hb 2.14-17; 4.15).
Obediência Sacrificial até a Cruz:
A obediência de Cristo foi plena, desde a encarnação até o Calvário.
Voluntariamente, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Fp 2.8). Esse versículo descreve o clímax da humilhação do Filho eterno de Deus, que assumiu a natureza humana, e da progressão da obediência terrena, culminando na cruz. O termo grego (gr. tapeinōsen) indica um ato voluntário e intencional de submissão. Ele não foi humilhado por imposição externa — Ele escolheu se humilhar (Jo 10.17,18), descendo à condição mais humilde e morrendo como servo (Is 53; 12.2). Em obediência ao Pai, submeteu-se à humilhação da cruz (Hb 5.8,9). Bacon descreve que “a morte de cruz fala do clímax da humilhação própria de Cristo, pois era a maneira mais infame de morte conhecida nas terras de Roma”. Associada à escravidão, estava a vergonha mais intensa: a morte de cruz era uma execução carregada de horror, reservada para os piores criminosos e estrangeiros (Dt 21.23; Gl 3.13).
Mas Cristo, o Santo de Deus, submeteu-se a essa ignomínia por amor aos pecadores (Hb 12.2).
O termo “obediente” (gr. hypēkoos) carrega a ideia de submissão completa à autoridade. A obediência de Jesus não foi parcial, nem circunstancial. As Escrituras afirmam que pela desobediência, o primeiro Adão trouxe condenação pelo pecado; e Cristo, o segundo Adão, trouxe a justificação pela sua perfeita obediência (Rm 5.19). Essa verdade robusta a obra redentora do Filho está fundamentada na obediência completa de Cristo ao Pai (Jo 6.38). Por sua obediência, Cristo triunfou sobre a morte, trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho (2 Tm 1.10, ARA). A salvação dos pecadores é resultado dessa obediência, e não de méritos humanos (Ef 2.8-9). Portanto, a morte de cruz não foi um acidente de percurso, mas o culminar do propósito redentor de Deus (At 2.23). Cristo obedeceu até o fim, por amor ao Pai e à humanidade. A obediência ativa de Cristo inclui toda a sua vida de conformidade com a vontade do Pai (Jo 4.34; Jo 6.38), e sua obediência passiva culmina na cruz (Jo 10.17-18). A justificação do salvo se fundamenta nessa perfeita obediência de Cristo, imputada por meio da fé (2 Co 5.21; Ef 2.8-9). A obediência de Cristo não é apenas substitutiva, mas serve de exemplo ao crente para obedecer à vontade do Pai (Rm 12.1; Mt 16.24).
Texto extraído da obra “A Santíssima Trindade”, editada pela CPAD.
