Lição 04 – Eúde e Sangar: Deus Usa os Improváveis
Prezado(a) professor(a),
A paz do Senhor!
Nesta lição 4 consideramos ser de extrema importância destacar para os seus alunos que Deus levanta libertadores que, à primeira vista, não se encaixam no perfil esperado de líderes ou heróis. Eúde, com a sua limitação física, e Sangar, com uma ferramenta incomum como arma, ilustram que Deus não escolhe com base nas aparências ou habilidades humanas, mas conforme os seus propósitos soberanos. Esses episódios claramente nos ensinam que o Senhor se vale dos improváveis para realizar feitos grandiosos, desafiando nossos critérios e revelando que a capacitação verdadeira vem de Deus.
Por outro lado, a lição também destaca a questão da violência e seus alunos podem questionar sobre a justiça divina em permitir atos tão violentos praticados por seus escolhidos. A fim de ajudá-lo(a) a cativar a atenção de sua classe para o tema desta aula destacamos o texto abaixo que é de autoria do pastor Valmir Nascimento, comentarista do trimestre.
III – A QUESTÃO DA VIOLÊNCIA
1. Um Deus injusto?
Nesses e em outros episódios do livro de Juízes, é notável a presença de batalhas e mortes. Críticos do cristianismo frequentemente se valem dessas passagens para alegar que o Deus da Bíblia é injusto, violento ou mesmo que incentiva a morte de inocentes. Tais acusações, contudo, carecem de fundamento sólido.
Em primeiro lugar, a própria noção de injustiça pressupõe a existência de um padrão objetivo de justiça. Como argumentaram diversos apologetas cristãos, para que se possa distinguir entre o justo e o injusto, é necessário um referencial absoluto, e esse referencial é o próprio Deus. Ao afirmarem, portanto, que Deus é injusto, céticos e ateus acabam, ainda que involuntariamente, partindo do pressuposto de que existe um padrão moral superior, o que, segundo a cosmovisão cristã, só pode existir se houver um Legislador moral. Assim, a crítica à justiça divina, em vez de enfraquecer a fé, revela uma dependência do próprio conceito de justiça estabelecido por Deus.
2. Pessoas inocentes
Em segundo lugar, a ideia de que existem pessoas completamente inocentes não encontra respaldo nas Escrituras, tampouco na experiência humana. A Bíblia é clara ao afirmar que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23), e que “não há um justo, nem um sequer” (Rm 3.10). Nesse sentido, a concepção de inocência, sobretudo de povos, é teologicamente insustentável.
Ainda assim, uma hermenêutica correta do Antigo Testamento mostra que o Senhor não mandou exterminar arbitrariamente as nações inimigas de Israel, incluindo os cananeus que habitavam a Terra Prometida. Paul Copan e Matthew Flannagan, ao analisar as narrativas de conquista, levando em conta o contexto histórico e literário, argumentam que muitas vezes o vocabulário marcial pode ser hiperbólico ou culturalmente específico (como parte da retórica de guerra antiga), e não necessariamente um mandamento literal de extermínio indiscriminado. O principal objetivo poderia ser a expulsão ou juízo contra a maldade humana, que, no caso dos cananeus, envolvia prostituição ritual e sacrifício de crianças, dentre outros atos.1 Eles destacam:
Vale a pena observar que a maioria dessas práticas é ilegal hoje, até em nações ocidentais contemporâneas, e nenhum grupo religioso que praticasse o incesto, a prostituição ritual, a bestialidade ou sacrifício humano seria tolerado em sociedades liberais contemporâneas baseado em leis de liberdade religiosa. Além disso, em muitas jurisdições, como vários Estados dos EUA, adultos que praticam sacrifícios humanos poderiam estar sujeitos à pena de morte. Logo, as práticas em questão são crimes graves — e não práticas triviais de mera preferência pessoal.2
William L. Craig também assevera:
Acabei percebendo em decorrência de uma leitura mais atenta do texto bíblico que a ordem de Deus a Israel não era primordialmente exterminar os cananeus, mas expulsá-los da terra. A terra era (e permanece hoje!) o valor supremo na mente desses povos do Antigo Oriente Próximo. Os reinos tribais cananeus que ocupavam a terra deveriam ser destruídos como estados-nação e não como indivíduos. O juízo de Deus sobre esses grupos tribais, que haviam se tornado tão incrivelmente depravados naquela época, é que eles estavam sendo desapossados de sua terra.3
No relato em análise, Eúde não agiu por motivação pessoal, mas num cenário de guerra e opressão prolongada em que Israel era subjugado por um poder pagão e hostil. A sua ação foi realizada como juiz instituído por Deus, numa missão específica de libertação nacional, característico daquele período histórico, em que a soberania divina também se manifestava por meio de juízo contra nações ímpias e opressoras. Nem mesmo a nação de Israel esteve isenta do juízo divino. Ao longo da história bíblica, quando o povo escolhido desviava-se da aliança e praticava a idolatria, o Senhor permitia que sofressem derrotas, exílios e opressões por outras nações (cf. 2 Rs 17.7-23; 2 Cr 36.15-21).
3. Revelação progressiva
Em terceiro lugar, é fundamental compreender que alguns textos bíblicos possuem caráter descritivo, não prescritivo, ou seja, relatam o que o Senhor realizou num determinado momento da história da redenção. O seu propósito principal é fornecer-nos conhecimento sobre os atos soberanos de Deus no passado a fim de extrairmos princípios espirituais e lições teológicas.
Além disso, a revelação bíblica é progressiva: Deus revelou-se de forma gradual ao longo da história, culminando em Cristo, que nos mostrou a plenitude da graça e da verdade (Jo 1.17). Segundo Eugene Merril:
Um compromisso assumido por todo aquele que busca escrever uma história de Israel é aceitar o Antigo Testamento em seus próprios termos. De fato, ele é um livro de história, mas ao mesmo tempo é a revelação progressiva da mente e dos propósitos do Senhor. É desta forma que ele deve ser lido e interpretado teologicamente. Embora a totalidade dos fatos perfaçam um corpo de informação histórica, cada fato, cada evento, cada pessoa do Antigo Testamento tem uma significação especial quando visto no contexto como um todo. O êxodo, por exemplo, é muito mais do que um episódio emocionante que lançou as bases para a nacionalidade de Israel. É um evento simbólico que tipifica a ação salvífica do Senhor com respeito a Israel e também a todo o mundo. Ver os fatos desta maneira não interfere na historicidade literal. Mas deixar de enxergar assim é falhar em ver o Antigo Testamento como uma obra de história que transcende infinitamente os limites da historiografia comum.4
Isso significa que certas ações divinas registradas no Antigo Testamento, como o juízo mediante guerras, devem ser interpretadas à luz do plano redentor em desenvolvimento, e não transportadas mecanicamente para a era da nova aliança.
Como vimos, esses líderes improváveis ensinam que a verdadeira capacitação vem do Senhor, e não das habilidades humanas ou da posição social. Seja um homem canhoto com uma arma improvisada ou um camponês com uma ferramenta agrícola, o Senhor transforma limitações em instrumentos de vitória. Além disso, a presença da violência nesses episódios deve ser compreendida dentro do contexto histórico, teológico e progressivo da revelação bíblica. O Deus que julgava as nações no Antigo Testamento é o mesmo que revelou plenamente em Cristo a sua graça e justiça.
NASCIMENTO, Valmir. Fidelidade às Escrituras em oposição à apostasia: Lições espirituais no livro de Juízes. Rio de Janeiro: CPAD, 2026, pp. 46-50.
Que Deus abençoe a sua aula e os seus alunos!
Verônica Araujo
Editora da Revista Lições Bíblicas Jovens
1 COPAN, Paul; FLANNAGAN, Matthew. Deus realmente ordenou o genocídio? como compreender a justiça de Deus. São Paulo: Edições Vida Nova, 2020, p. 83.
2 Idem, p. 84-85.
3 Citado por: COPAN, Paul; FLANNAGAN, Matthew. Deus realmente ordenou o genocídio? como compreender a justiça de Deus. São Paulo: Edições Vida Nova, 2020, p. 101.
4 MERRIL, Eugene H. História de Israel no Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p. 5.
