Lição 2 – O Deus Pai
ESBOÇO DA LIÇÃO:
I – A IDENTIDADE DE DEUS, O PAI
II – O PAI REVELADO EM CRISTO
III – A PESSOA DE DEUS PAI
O Deus Pai:
A doutrina da Trindade é um mistério revelado e central à fé cristã: um só Deus em três Pessoas coeternas, consubstanciais e distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Não se trata de três deuses, mas de um único Deus em essência (gr. ousía), que se manifesta pessoalmente (gr. hypóstases) em unidade perfeita e indivisível. O Pai é a fonte eterna da divindade, o princípio sem princípio, de quem o Filho é gerado e de quem procede o Espírito (Jo 15.26; Hb 1.3).
O Pai é o autor do plano redentor, revelado plenamente em Jesus Cristo e aplicado pelo Espírito Santo. A revelação do Pai é progressiva nas Escrituras, culminando em Cristo, o perfeito revelador do Deus invisível (Jo 1.18). Portanto, conhecer a identidade do Pai é mais do que um ponto doutrinário e teológico, mas, sobretudo, é entrar em comunhão com o Criador e Redentor, como ensina Agostinho: “inquieto está o nosso coração, enquanto não repousar em ti”.¹
O Pai é o Único Deus Verdadeiro:
A identidade de Deus como Pai é de suma importância na teologia cristã. Sua unicidade é afirmada com clareza tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. A confissão de fé de Israel, conhecida como Shema² declara: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4). Esse versículo é uma proclamação enfática do monoteísmo bíblico, destacando que o Deus de Israel é único, incomparável, absoluto e singular. Entretanto, o Deus único também é pessoal e relacional, revelando-se progressivamente como Pai, especialmente na Nova Aliança. Deus, no Antigo Testamento, é um só Deus, que se revela pelos seus nomes, pelos seus atributos e pelos seus atos.³ Ele é apresentado como Criador (Gn 1.1), Juiz (Gn 18.25), Libertador (Êx 20.2) e Pai do povo de Israel (Is 63.16). No Novo Testamento, essa revelação ganha profundidade e clareza. O Pai é apresentado como a Primeira Pessoa da Trindade e sua paternidade é reconhecida explicitamente em várias passagens (Jo 6.27; 1 Co 15.24; Gl 1.1,3; Ef 6.23; 1 Pe 1.2).
O termo “Deus Pai” não é apenas um título, mas expressa a universalidade do senhorio do Pai, reafirmando a unidade do Corpo de Cristo: “um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos, e em todos” (Ef 4.6). Quer dizer que Deus é transcendente (“sobre todos”), ativo (“por todos”) e imanente (“em todos vós”). Cristo reforçou essa identidade ao chamar Deus de “meu Pai” e ensinar os discípulos a orarem “Pai nosso, que estás nos céus” (Mt 6.9). Essa oração aponta para a transcendência divina e convida os crentes à intimidade filial com Deus. O Pai é aquele que está nos céus, mas que está próximo dos que o invocam com fé e reverência (Sl 145.18).
A paternidade de Deus, portanto, revela um relacionamento íntimo, real, pessoal e transformador. O crente não se aproxima de um Deus distante, mas de um Pai amoroso que deseja comunhão com seus filhos: “[…] recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15). Desse modo, devemos conhecer a Deus como Pai não como um exercício intelectual, mas como uma fonte de consolo, identidade e segurança espiritual para os filhos de Deus em Cristo.
NOTAS:
¹ AGOSTINHO. Patrística: Santo Agostinho: Confissões. São Paulo: Paulus, 1997, p. 13. ² Shema (שמע) é uma palavra hebraica que significa “ouve” ou “escuta” e é a primeira palavra da declaração central de fé do judaísmo (Dt 6.4). Declara que o Senhor (YHWH) é “um” (echad). (HAMILTON, Victor P. Manual do Pentateuco. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 454).
Texto extraído da obra “A Santíssima Trindade”, editada pela CPAD.
