Lição 6 – O filho como o verbo de Deus
ESBOÇO DA LIÇÃO:
I – O VERBO COMO DEUS ETERNO
II – O VERBO COMO CRIADOR
III – O VERBO COMO REVELAÇÃO DO PAI
O Filho como o Verbo de Deus:
O prólogo do Evangelho de João apresenta o Verbo eterno como Deus, Criador, Revelador e Sustentador (Jo 1.1–18). Ele se fez carne e revelou de forma plena e completa a glória do Pai. Trata-se de uma revelação clara e inconfundível da divindade do Filho. A glória que João testemunhou não é uma glória qualquer, mas a glória do Unigênito do Pai, cheia de graça e verdade, refletindo a essência de Deus.
Neste capítulo, veremos que essa revelação marca o clímax na encarnação do Verbo. Nesse ato, o Deus invisível tornou-se visível (Jo 1.18), o Eterno irrompeu no tempo (Gl 4.4), o mistério oculto foi revelado em Cristo (Cl 1.26–27), e aquele que é transcendente assumiu forma humana (Jo 1.14). Na encarnação, o insondável Deus se revelou de maneira acessível, pessoal e redentora, ofertando graça sobre graça (Jo 1.16).
O Verbo Preexistente:
O prólogo de João (dezoito versículos iniciais) é chamado de “Hino Logos”. No versículo de abertura, o uso da frase “no princípio era o Verbo” (Jo 1.1a) remete diretamente ao livro de Gênesis, “no princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1), identificando o Verbo com o Deus Criador. Aqui, o evangelista apresenta o Verbo como preexistente, eterno, coessencial com o Pai. Essa é uma maneira de referir-se ao atributo da eternidade que somente Deus possui. O Verbo não teve um início; Ele sempre existiu. Isso é um atributo exclusivo de Deus (Sl 90.2; Is 43.10).
O vocábulo “Verbo” (gr. Logos) vem de legō, uma expressão grega empregada para “palavra”, “fala”, “expressar uma opinião”. Para os gnósticos, o Logos é uma emanação intermediária entre o Deus supremo e o mundo material, associado ao Demiurgo, uma divindade inferior responsável pela criação imperfeita e corrupta do cosmos físico.¹ Conforme Richards, no pensamento filosófico grego, logos era usado em relação ao princípio racional ou à Mente que regia o universo. No hebraico, o termo “memrá” era utilizado nos Targuns como referência à manifestação de Deus como o Anjo de Jeová, e a Sabedoria de Deus (Pv 8.23).²
Enquanto os gregos pensavam em um princípio impessoal e os gnósticos num ser intermediário, João apresenta o Logos como o próprio Deus Eterno: Jesus Cristo, o Filho Unigênito do Pai (Jo 1.14; 3.16). A doutrina do Logos em João não é dependente dos filósofos especulativos e nem da doutrina do gnosticismo. Em João, o Logos é o Deus encarnado, a segunda Pessoa da Trindade (Jo 10.30; 20.28). Essa designação e identificação do Logos como sendo o Cristo aparece três vezes nos textos neotestamentários (Jo 1.1, 14; 1 Jo 1.1; Ap 19.13).
Conforme Hendriksen, “Cristo é o Verbo (ou a Palavra) de Deus: Ele expressa ou reflete a mente de Deus e também revela Deus para os homens” (Jo 1.18; Mt 11.27; Hb 1.3).³ Jesus não começou a existir em Belém; Ele é coexistente com o Pai desde o princípio. Antes de tudo o que existe, o Verbo já existia: “Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste” (Cl 1.17, NAA). Significa que “todas as leis pelas quais todo o mundo é uma ordem e não um caos são a expressão da mente do Filho […] o Filho é o princípio e o fim da criação, e o poder que lhe dá consistência”.⁴ Esse texto paulino reforça a pré-existência e a sustentação do cosmos pelo Filho.
NOTAS:
¹ LAMELAS, Isidro. Gnosticismo e Dualismo Anticósmico: gênese remota de uma crise. Ephata, 4, n. 1, 2022, p. 39–78.
² RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 193.
³ HENDRIKSEN, William. O Evangelho de João. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 101.
⁴ BARCLAY, William. Epístola Colossenses. Trad. Carlos Biagini. São Paulo: Vida Nova, 1985, p. 41–42.
Texto extraído da obra “A Santíssima Trindade”, editada pela CPAD.
