Lição 1 – Deuteronômio: o livro da aliança
Objetivos da Lição:
I) Explicar a autoria, o propósito e o valor de Deuteronômio;
II) Apresentar o contexto histórico de Deuteronômio;
III) Mostrar os ensinos doutrinários e práticos de Deuteronômio.
ESBOÇO DA LIÇÃO
I – DEUTERONÔMIO: AUTORIA E PROPÓSITO
II – CONTEXTO HISTÓRICO DE DEUTERONÔMIO
III – O LADO DOUTRINÁRIO E PRÁTICO DE DEUTERONÔMIO
Qual seria a pertinência de um livro escrito há mais de três mil anos para a Igreja dos dias atuais? Em primeiro lugar, deve-se considerar que a Palavra de Deus é atemporal. Ela não envelhece, não caduca, posto que, na sua essência, é plenamente divina e inspirada (Is 40.8; Mt 24.35; 2 Tm 3.16; 1 Pe 1.25); logo, por integrar a Palavra de Deus, Deuteronômio tem grande relevância, razão por que Peter Vogt disse uma vez:
A nova comunidade de Israel estava sendo preparada para ser introduzida na terra da promessa depois de uma árdua peregrinação pelo deserto, de lutas e batalhas vencidas e da velha geração que ficou para trás. Essa nova comunidade tem diante de si a oportunidade de viver as promessas divinas, mas, para isso, é preciso estar preparada. Assim, Deuteronômio é a repetição da Lei com o objetivo de chamar esse povo para um real compromisso com Deus e atentar realmente para os termos da aliança.
Israel, como um povo que vivia em meio às circunstâncias corriqueiras da vida, enfrentava crises políticas, guerras, lutas, batalhas e, ao entrar na nova terra, enfrentaria tensões e outros desafios, porém Moisés, o homem de Deus, deixa claro que se, de fato, os israelitas procurassem ter um compromisso real com a Aliança do Senhor antes de entrarem na Terra Prometida, as adversidades aparentemente impossíveis de serem vencidas seriam superadas. Era preciso que procurassem seguir em frente compreendendo a natureza da aliança e mantendo seriamente o compromisso com o Senhor.
Deuteronômio é, sem dúvida, um livro bíblico altamente debatido por estudiosos de diversas academias hoje, o que gera as mais diversas opiniões. Os métodos aplicados jamais chegaram a um consenso mesmo sendo bem refinados nas suas nuanças. Esse processo cresce cada vez mais como se pode constatar, por exemplo, por parte da “nova crítica”, que, na sua ênfase da literatura, considera o estudo do Antigo Testamento como algo já acabado. Na análise estrutural, objetiva-se também ratificar que, na sua natureza, o texto já está acabado; nesse sentido, a nova estilística que se faz presente também exerce impacto nessa forma de conceituação.
Os métodos exegéticos aplicados ao estudo do livro de Deuteronômio são conhecidos, como a crítica histórica, que envolve o estudo das fontes e a formação histórica do texto. A crítica literária tradicional volta-se para análise da estrutura, do gênero e dos estilos que identificam esse livro como um sermão de Moisés ou como coleção de leis em forma de tratados antigos do Oriente Próximo. Ainda se faz alusão à crítica canônica e visa-se saber o lugar desse livro na formação final do cânon bíblico.
O propósito da nova crítica é enfatizar a análise do texto como unidade literária, independentemente da sua origem histórica. Nesse particular, a abordagem é feita analisando a leitura sincrônica, cujo objetivo é o texto final como está hoje. Depois, segue-se a estrutura e o estilo, atentando para a repetição de palavras como ouvir, amar, coração. Além disso, têm-se os temas centrais, que abordam sobre a lealdade para com o Senhor Deus, a eleição de Israel e o conceito de aliança que se firma na relação de amor e obediência, que resulta não apenas de um processo de edições históricas, mas também em algo que se fundamenta em uma fé monoteísta, que, por sua vez, incide sobre a espiritualidade do povo (Dt 6.4).
No caso da nova estilística ou, então, análise estilística contemporânea, o enfoque é a linguística e a estética textual, atentando-se para ritmo e a repetição (paralelismo, cadência da linguagem), bem como uso de formas jurídicas e homilética; também envolve a linguagem do pacto — maldição e bênção — e, por fim, têm-se as marcas orais, que são apresentadas em fórmulas repetidas: “Guarda, pois, os mandamentos” (Dt 7.11; 8.6).
À parte de tais explicações, o leitor deve estar plenamente certo de que esse livro não é produto da imaginação de Moisés, mas, sim, uma porção da Palavra de Deus, que tem lugar central na teologia do Antigo Testamento e realça a importância da renovação da aliança entre Deus e o seu povo. O livro de Deuteronômio naturalmente faz combinação com diversos matizes e busca ajustar termos jurídicos, bem como narrativos e teológicos, cujo propósito é convocar Israel para uma vida de fé, obediência e fidelidade com Deus, o Senhor.
Deuteronômio é visto, sobretudo, no tocante aos discursos finais de Moisés, que, em essência, procuram relembrar os atos poderosos de Deus, rever os seus mandamentos e, assim, exortar todo o Israel a viver em obediência e manter uma fidelidade exclusiva para com o Senhor. O livro chama a nova geração de israelitas a viver a aliança (Dt 6.4-5), que não tem apenas um cerne jurídico, mas que também se fundamenta num relacionamento que responde a Deus com amor, obediência e fidelidade.
O leitor há de entender que a estrutura de Deuteronômio firma-se em modelos de tratados ou alianças comuns no Antigo Oriente Próximo, com o propósito de que esse compromisso reforce a renovação do pacto, de modo que o documento apresenta introdução (Capítulo 1), a narrativa histórica da relação (Capítulos 1–3), as cláusulas da aliança (4–26), que são retratadas em termos de bênçãos e maldições (27–30), e, por fim, a sucessão da nova liderança (31–34). Em todo esse conteúdo, o alvo é levar cada israelita a ter consciência do compromisso que assumiu com o Senhor, que deve firmar-se na fidelidade e na confiança das suas promessas para ter um futuro certo.
Portanto, amado irmão, ao pisar no terreno de Deuteronômio, não o veja apenas como um aglomerado de leis; o seu conteúdo é espiritual e destaca a importância da aliança, bem como a fidelidade, a justiça e o amor de Deus, que é apresentado neste livro como aquele que libertou o seu povo da agrura e que agora deseja manter um relacionamento pessoal e pleno com ele, alicerçado na fé e na obediência.
Nota de rodapé
¹ VOGT, Peter T. Interpretação do Pentateuco. São Paulo: Cultura Cristã, 2015.
Texto extraído da obra “O DEUS DA ALIANÇA”, editada pela CPAD.
